Dog Art a partir de «KING - A Street Story», de John Berger
«Dog Art» , a partir de «KING - A Street Story», de John Berger, encenado por Pedro Alves, estreou a 18 de Abril de 2002, no Estúdio Doiséme, em Mem Martins. A estreia contou com a presença do escritor inglês John Berger. Esta foi uma co-produção entre o teatromosca e o Teatro Tapa Furos. O espectáculo foi apresentado no Palco Oriental, em Lisboa, durante o mês de Novembro de 2002 e esteve presente na 4ª Mostra de Teatro Jovem de Lisboa, no Teatro Taborda.
SINOPSE
Com diálogos beckettianos, este texto, editado originalmente em Inglaterra no ano de 1999, forma um retrato provocador dos desalojados, fora do mainstream, que foram quebrados por ele ou que dele fugiram. Conta um dia na vida dos marginalizados de uma grande cidade e reflecte sobre as injustiças que comete o progresso quando renuncia à consciência. A história é contada em pequenas secções, parágrafos, alguns só de 1 linha. Algumas frases e descrições, no texto do consagrado escritor inglês, são assombrosas e poderosas. A cidade onde decorre a história é uma colagem de cidades ou uma cidade imaginária. Paris, Barcelona, Glasgow, Londres, Lisboa. A história é contada por um cão, ou alguém parecido, ou que se faz passar por cão, com o seu sentido de lealdade, paciência e intuição. Berger decidiu apoderar-se da sinceridade brutal de uma expressão popular, igualmente anónima: aqueles que vivem na rua levam uma vida de cão! E esse cão é King. Talvez seja um cão, mas é um cão que fala ou um cão que sabe muito ou talvez seja uma pessoa que se faz passar por cão porque todos ali alteraram o nome. Todos precisam de uma certa loucura. Para contornar a sua situação, assume a personalidade de um cão ("Os homens, até muito recentemente, têm utilizado os diferentes animais e as suas qualidades para melhor entenderem certos aspectos da natureza humana", diz o autor). Os animais, nas sociedades xamanísticas, representam uma espécie de guia para o homem seguir em direcção ao conhecimento. King é o guia do leitor. Talvez por ser relatada por um cão, a história avança em fragmentos desconexos, seguindo o estímulo do imediato. Não sucede nada de muito dramático no texto todo, salvo a tragédia final que qualquer habitante de uma grande cidade conhece de antemão em que os despojados são ameaçados de um total despojamento.
DESERTOS DE ALMAS
O que se quer com o espectáculo «Dog Art» é lançar perguntas sobre uma situação preocupante: actualmente, 85% da população mundial está cada vez mais pobre, frente a uns 15% que enriquece. E todos sabemos que isto nos está a levar na direcção da catástrofe. Existe um novo tipo de pobreza, que surge no mundo em abundância, uma queda vertical, que qualquer um de nós pode sofrer a qualquer instante. Um espectáculo não pode modificar as coisas. Seria uma loucura pensá-lo. Mas pode contribuir para que se sinta mais respeito por pessoas que, apesar de viverem em situações sub-humanas, continuam a lutar por manter um certo respeito por si mesmas. Estes seres humanos sabem algo sobre a essência da vida que aqueles que têm poder nunca chegarão a conhecer. Merecem que os abordemos com humildade e que, a partir de aí, nos coloquemos perguntas a nós próprios. Vico, o protagonista vagabundo de KING ..., diz-se descendente do grande Giambattista. Através da voz desta personagem surge uma homenagem a Giambattista Vico, o filósofo italiano que tentou, na sua obra mais ambiciosa, «A Nova Ciência», fazer confluir para uma única ciência humana a história e as ciências sociais. Neste espectáculo recupera-se Vico como profeta de uma nova barbárie, herdeira do materialismo desatado e do avanço da ciência divorciada da consciência. "Os homens encerrar-se-ão nas cidades", vaticinou, verdadeiros "desertos de almas" e, no começo e recomeço da história cíclica, o homem regressará à condição bestial da barbárie primitiva. No entanto, nem tudo está perdido. Na sua extrema decadência, a cidade pode conduzir a um novo ciclo, como catalisador oportuno da renovação humana.
SOBRE O AUTOR
John Berger, romancista, pintor e historiador de arte, nasceu em Londres, em 1926. Depois de cumprir o serviço militar no Exército Britânico, frequentou a Central School of Arts e a Chelsea School of Arts, em Londres, onde foi aluno de Henry Moore. Depois seguiu-se uma mescla de crítica, ficção e política: o escândalo do seu primeiro romance, A Paintor Of Our Time, duramente criticado pela sua aparente simpatia com a Hungria pró soviética; o êxito inesperado do seu ensaio Modos de Ver, posteriormente adaptado para televisão pela BBC; o Booker Prize pelo seu romance G doado, em parte, às Panteras Negras; o seu exílio definitivo no continente, numa comunidade de camponeses nos Alpes e a sua actual dupla vida pendular, dividida entre um subúrbio parisiense durante o Inverno e a povoação alpina no Verão. Escreveu, entre outras obras, Art And Revolution; The Sucess And Failure of Picasso; To The Wedding: A Novel; A Fortunate Man: The Story of a Country Doctor; e ainda algumas peças de teatro (The Vertical Line e outras colaborações com o Theatre de Complicite); poesia; escreveu o argumento para alguns filmes de Alain Tanner (Jonas Que no Ano 2000 Terá 25 Anos e A Salamandra); King é uma espécie de epílogo involuntário a outras obras do escritor. Os romances de Berger falam da dialéctica moderna implacável entre a memória e a perda, o progresso e a nova barbárie. E se a trilogia Into Their Labours – Pigearth (1979), Once in Europa (1983) e Lilac and Flag (1990) –é uma meditação sobre o caminho do camponês que troca uma pobreza por outra na cidade, King é o último destino da diáspora rural e a face mais atroz de uma utopia urbana.
Sobre o texto, o autor afirma: "Quem quiser tentar mudar o mundo ou tentar mudar algumas coisas no mundo, não creio que o consiga a escrever ficção. Penso que deve organizar pessoas e, talvez, escreva escritos políticos, directos e comprometidos. Não escreve poesia, não escreve ficção, porque não é muito eficaz, de qualquer forma directa, para esse propósito. Mas o que, escrever ficção, pode alterar, provavelmente, é algo muito subtil na mente das pessoas. Todos temos tendência para dividir o mundo que nos rodeia em "nós" e "eles". "Nós" são as pessoas que, ora são como nós, ou com as quais nos sentimos bem, ou com quem simpatizamos e cujos valores partilhamos. "Eles" são aqueles que são diferentes, que não são como nós. Como resultado, uma espécie de violência ocorre. Antes de mais, na mente e, depois, verdadeiramente, de facto, porque "eles" não são como "nós", podemos fazer uma série de coisas a "eles" se for do "nosso" interesse. Parece-me que uma história pode, por vezes, tornar mais difícil às pessoas viver, todo o tempo, com aquela clara e rígida distinção entre o "nós" e o "eles". Por outras palavras, parece-me que, depois de conhecerem KING..., da próxima vez que passarem por uma dessas feias, decrépitas, aparentemente, desesperadas, pessoas na rua, não vão utilizar a terceira pessoa, não vão dizer "ele" ou "eles", ou, então, dizem-no com mais dificuldade."
FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA Autoria|John Berger Tradução, adaptação e encenação|Pedro Alves Interpretação|Sérgio Moura Afonso, Paulo Cintrão, Carla Guerreiro João Miguel Rodrigues e Bárbara Santos Movimento|Carla Sampaio Sonoplastia|Carlos Arroja Desenho de luz|Pedro Alves e Carlos Arroja Operação de som e luz|Paulo Cunha Montagem|Pedro Alves e Paulo Cunha Figurinos|Carlos Coxo Costureira|Adélia Canelas Fotografia|Jean Mohr, António Rodrigues e Sérgio Santos Design gráfico e direcção de produção|Pedro Alves Produção Executiva|Marco Martin e Sónia Tobias Produção|teatromosca e Teatro TapaFuros Apoios|Câmara Municipal de Sintra, Câmara dos Ofícios, IPJ, Utopia Teatro e Serviaide