Ser Bom
a partir de «Notes From Underground», de Eric Bogosian

O teatromosca produziu o seu primeiro espectáculo, "ser bom ", a partir de "Notes From Underground", de Eric Bogosian, na Fábrica da Pólvora, em Barcarena. A estreia aconteceu no dia 7 de Outubro, às 21.30h.

MASOQUISMO TRANQUILO
Houve, necessariamente, uma certa dose de masoquismo quando escolhemos este "ser bom " para inaugurar o reportório do teatromosca. Uma história de cidade como esta em que, de um modo ao mesmo tempo irónico, desesperado e terno, um homem relata episódios da sua vida precariamente asceta. Começámos o trabalho com consciência da extrema familiaridade que nos unia ao texto, quer dizer, como gente de cidade que somos, linha a linha "Notes From Underground" parecia ser um texto senão escrito por nós, escrito para nós. O que, pensámos, poderia inquinar a representação por demasiado pessoal. O espectador dirá. Nós dizemos: temos as vísceras tranquilas. Mas que, como a personagem, nos apetece perguntar, "porque é que vivemos nesta cidade com toda esta raiva?", ai lá isso, desculpem-qualquer-coisinha. 


MUDAR O TEXTO
Traduzir o texto e adaptá-lo para a realidade portuguesa foi outro exercício a que nos obrigámos (Eric Bogosian é, como aliás, lamentavelmente, muitos outros celebérrimos dramaturgos, um ilustre desconhecido das editoras pátrias). Traduzir não é a palavra - mudámo-lo. Há passagens omitidas por opção dramatúrgica ou, noutras, um "intercâmbio possível" entre referências culturais americanas e portuguesas. Por exemplo, quanto à relação de amizade virtual que o personagem mantém com um pivot televisivo, optámos pelo familiar José Rodrigues dos Santos do telejornal da RTP, em detrimento do remoto Dan Rather do jornal da noite da CBS.Os beatles e o "Requiem" de Mozart são vontade do personagem.
PAULO CAMPOS DOS REIS

 
NOTES FROM UNDERGROUND*
Pediram-me para fazer uma performance no museu de arte moderna de Nova Iorque. Preparei um diário com várias entradas que li em voz alta para a assistência. Quando as escrevi, fi-lo sem pensar em nenhuma direcção em concreto para a história, tentei escrever simplesmente num registo de voz interior. Tinha uma ideia clara da personagem: um homem que exteriormente parecia perfeitamente "normal". Publiquei a performance que fiz nessa noite e, dois anos depois, apresentei-a durante uma semana. Chamei-lhe "Notes From Underground" em homenagem à obra-prima de Dostoiévski. As "Notes" originais foram para mim e muitas outras pessoas essencialmente um trabalho de honestidade e frontalidade. Este livro não é uma adaptação desse trabalho e, no entanto, espero que se inclua numa tradição de escrita nua, no sentido em que expõe o que normalmente está escondido, que é "underground".
ERIC BOGOSIAN
*texto remetido pelo autor para o programa do espectáculo

SOBRE O AUTOR
Nascido em Woburn, Massachussetts, Eric Bogosian é considerado por alguma imprensa americana um dos mais singulares e exuberantes comentadores da vida americana do final do século. Desde as suas primeiras performances ("Men Inside", "Voices of America", "Funhouse"), passando pelos três monólogos premiados com Obies ("Drinking in America", "Sex, Drugs, Rock & Roll", "Pounding Nails in The Floor With My Forehead"), e acabando nas suas três peças "Talk Radio" (que, transformada em argumento para o filme homónimo de Oliver Stone, lhe valeu um Urso de Prata, no Festival de Cinema de Berlim), "Suburbia" e "Griller", o trabalho de Bogosian tem sido apresentado um pouco por todo o mundo. O seu último livro é "MALL". Como actor, já participou em mais de uma dúzia de filmes. O papel do misantrópico apresentador de rádio Barry Champlain, que desempenhou na versão de Oliver Stone para a sua peça "Talk Radio", tornou-o uma cara conhecida dos filmes americanos. Mais recentemente vimo-lo em "As Faces de Harry", de Woody Allen e "Ararat", de Atom Egoyan. A sua única aparição em Portugal foi com o espectáculo "The Worst of Eric Bogosian", no FALADURA, na inauguração do Teatro Carlos Alberto, no Porto. A sua morada na internet é www.ericbogosian.com

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Autoria|Eric Bogosian Encenação, dramaturgia e adaptação|Paulo Campos dos Reis Interpretação|Pedro Alves Tradução|Pedro Alves e Paulo Campos dos Reis Espaço cénico|Paulo Campos dos Reis Operação de som e luz|Paulo Cacheiro Fotografia|Sérgio Santos Contra-regra|Paulo Cintrão Produção Executiva|Ana Pinto (Associação Juvenil Rostos Cobertos) Produção|teatromosca Apoios|Câmara Municipal de Sintra, Câmara Municipal de Lisboa, Pólvora Café, CP, Teatro Nacional D. Maria II, Teatroesfera, Centro Paroquial da Igreja de Rio de Mouro e Bombeiros Voluntários de Barcarena

 

 

teatromosca
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