Trilogia "Dos Seus Trabalhos"
a partir de textos de John Berger

“...outros trabalharam
e vós aproveitastes os seus trabalhos”

(João 4:38)

INTO THEIR LABOURS [trilogia literária]
Na sua trilogia Into Their Labours (Pig Earth, Once in Europa e Lilac and Flag), o escritor inglês John Berger documenta a vida dos camponeses na pequena aldeia dos Alpes franceses para onde se mudou há mais de trinta anos, num estilo literário que mistura ficção e não-ficção. Com uma forte componente gráfica, é apresentado um mundo que nos é estranho, mas, apesar disso, não deixa de nos soar familiar, visto que retrata uma cultura campesina na qual os nossos antepassados viveram. Berger assume-se aqui, mais do que em qualquer outra obra sua, como contador de histórias, e esta trilogia parece-se mais com uma colecção de histórias e contos de origem popular interligados entre si.

É feito o retrato de um conjunto de personagens que pertencem a um sector social praticamente extinto (os camponeses) ou personagens que têm as suas raízes no mundo rural (por vezes, resta-lhes apenas uma memória longínqua desse modo de vida). Estas personagens aparecem como actores e testemunhas de um mundo em mutação, onde o modo de vida do camponês, seguindo os seus costumes e tradições, desaparece rapidamente. A perda desses valores, associada à diáspora forçada em direcção aos grandes centros urbanos, tem levado ao apagamento dessa milenar relação com a “terra”, à quebra de laços com a tradição e a comunidade, conduzindo a uma progressiva perda de identidade.

O primeiro volume da trilogia intitula-se Pig Earth (1979). Através de um conjunto de histórias, poemas e ensaios, Berger fala do quotidiano de uma pequena comunidade rural nas montanhas, onde os camponeses, dedicados ao seu trabalho, ignoram a História, vivem isolados do mundo exterior e temem um futuro ainda mais incerto baseado no progresso. O segundo volume, Once in Europa (1983), aprofunda ainda mais a questão da modernização deste mundo rural. Uma colecção de histórias, em que o amor e a indiferença constituem uma parte essencial da vida das personagens, mostra como o mundo rural retratado no primeiro romance tende a desenvolver-se e a modernizar-se, criando cada vez mais injustiças. O último livro, Lilac and Flag (1990), apresenta estas e outras personagens num local completamente diferente, a metrópole. Aí, os camponeses perdem-se num meio cujos costumes lhes são estranhos, explorados pelos patrões, ansiando constantemente por um regresso à vida rural que abandonaram.



Jean-François Millet - Camponesa com o seu rebanho (1863)

DOS SEUS TRABALHOS [trilogia dramática]
Partindo dos textos de John Berger, pretende-se, com esta trilogia de espectáculos teatrais, elaborar um retrato do modo de vida camponês, reflectindo sobre a sua cultura e o seu progressivo desaparecimento. Por conseguinte, a partir do ponto de vista particular dos habitantes desse mundo rural e das suas experiências, essa reflexão acaba também por traduzir-se num estudo sobre as relações de poder.

Nos textos do autor inglês encontramos uma perfeita fusão de poesia, narrativa e ensaios sócio-políticos. Assim, também o nosso trabalho deverá situar-se na fronteira entre o real e a ficção, entre a criação artística e o estudo antropológico, pondo em evidência as dicotomias ficção/facto, ficcional/factual. A própria ideia de uma comunidade que vive das suas próprias estórias e pequenas ficções serve a analogia possível de uma comunidade como ficção. Esta forma de representação implica um contacto mais próximo e directo entre o artista e a realidade que pretende retratar.

O teatromosca apresenta-se como companhia residente no concelho de Sintra, um observatório social priveligiado pela sua especificidade, entre o rural e o urbano, entre o ancestral e o moderno, entre a agricultura e a indústria. O meio envolvente dos espaços de pesquisa e criação desempenha um papel fundamental em todo o processo criativo do projecto. Pela sua situação geográfica e social, os co-produtores a associar ao projecto, devem proporcionar aos criadores um contacto priveligiado e em primeira mão com algumas das situações abordadas: a proximidade de fronteiras; o constante diálogo entre zona rural e zona urbana, entre isolamento e solidão; a vida nos grandes espaços urbanos... Assim, na primeira produção desta trilogia, pretende-se estabelecer uma relação próxima entre a equipa afecta ao projecto e as comunidades onde decorrerem os ensaios, com o objectivo de aprofundar o trabalho de construção de personagens, almejando uma possível contaminação das artes por códigos não artísticos e, igualmente, na perspectiva de uma gestão sustentada do próprio projecto, com o objectivo de contribuir para a divulgação dos espectáculos que resultarem de todo este processo. Nas restantes produções, esse contacto com a comunidade e com o próprio local de criação será mais distanciado e objectivo, à imagem da própria relação das personagens com a terra, representada na trilogia criada por Berger.

Essa relação das personagens bergerianas com a terra e o rompimento dessa ligação provocado pela diáspora, terão maior reflexo na cenografia e figurinos, reforçando a metáfora da fusão do camponês com a terra, elemento central na sociedade rural.

Serão respeitadas as linhas traçadas pelo próprio autor dos textos no que diz respeito à construção das personagens e à representação. Assim, tendo em conta a evolução registada na trilogia, pretende-se realizar um trabalho realista e informal, na abordagem ao primeiro texto, evoluindo, nos trabalhos seguintes, para zonas mais formais de encenação e na direcção de actores.

Com este projecto, pretendemos colocar-nos no papel de “agentes provocadores”, com a subjectividade inerente ao gesto artístico, retratando uma determinada realidade e fornecendo ideias, com o objectivo de originar debate e reflexão sobre os diferentes temas abordados.

 

ESTREIA EM 2010

 

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Autoria|John Berger Tradução, adaptação e direcção|Pedro Alves Interpretação|Filipe Araújo, João Vicente, Rita Rodrigues e Yolanda Santos Assistência de direcção|Diana Alves Desenho de luz|Carlos Arroja Figurinos|Catarina Varatojo Espaço cénico |Pedro Silva Fotografia|António Rodrigues Design gráfico|Alex Gozblau Produção Executiva|Sónia Tobias Produção|teatromosca

 

 

teatromosca
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